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Segunda-feira, Janeiro 01, 2007

Rodrigo Pedroso - Pio XII e o nazismo

Gentilmente cedido pelo autor. A nota sobre a carta-renúncia de Pio XII é minha, mas a coloquei a partir de uma indicação de leitura do próprio Rodrigo.

Não existe fonte historica alguma que comprove ou sugira que a Santa Sé entrou em acordo com a Alemanha Nazista para não tomar conhecimento do holocausto.

O que houve foi uma Concordata assinada entre a Santa Sé e a Alemanha, em 20 de julho de 1933. O que é uma concordata, no direito canonico internacional? Concordata é um documento em que a Igreja, na qualidade de autoridade eclesiastica, e o Estado, na qualidade de poder secular, regulam e delimitam suas relações mutuas e suas atribuições reciprocas. É um documento para impedir que uma autoridade interfira nas atribuições de outra, e vice-versa. Durante os seculos, a Igreja assinou diversas concordatas. A mais recente concordata foi assinada entre a Santa Sé e a Republica Portuguesa, em 2004 (ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Concordata_de_2004)

A edição do L'Osservatore Romano (o diario oficial do Vaticano), de 2 de julho de 1933, esclarecia expressamente aos fiéis que a assinatura da Concordata não deveria ser interpretada em sentido algum como aprovação da ideologia nazista.

O principal objetivo da Concordata firmada pela Santa Sé em 1933 era garantir aos catolicos da Alemanha a liberdade religiosa. Todavia, o governo nazista desrespeitou a Concordata. Repetidas violações aos direitos dos catolicos alemães levaram o Papa Pio XI a condenar a ideologia nazista como contrária à Fé catolica e ao direito natural, na Enciclica Mit Brennender Sorge, assinada em 14 de março de 1937. A Enciclica está disponivel, em inglês, no sitio eletronico do Vaticano: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_14031937_mit-brennender-sorge_en.html. Nesta Enciclica, o Papa proclamou ao mundo o que o nazismo realmente era: uma arrogante apostasia de Jesus Cristo, a recusa de seu Evangelho e de sua obra de Redenção, a idolatria da raça e do Estado, a nulificação da liberdade e da dignidade humana.

Em 20 de outubro de 1939, em sua primeira Enciclica, Summi Pontificatus, o Papa Pio XII não deixou de recriminar o ressurgimento do paganismo e o racismo, na epoca representados pelo nazismo:

«A tão decantada laicização da sociedade, que tem feito progressos cada vez mais rápidos, subtraindo o homem, a família e o Estado ao benéfico e regenerador influxo da idéia de Deus e do ensino da Igreja, fez ressurgir, em regiões onde por espaço de tantos séculos brilharam os fulgores da civilização cristã, indícios, cada vez mais claros, mais distintos e angustiosos de um paganismo corrompido e corruptor. (...)
«27. O primeiro desses erros perniciosos, hoje largamente difundidos, é o esquecimento daquela lei de caridade e solidariedade humana, sugerida e imposta, quer pela identidade de origem, e pela igualdade da natureza racional em todos os homens, sem distinção de povos, quer pelo sacrifício da redenção oferecido por Jesus Cristo sobre a cruz ao Pai celeste em favor da humanidade pecadora. (...)
«Todos aqueles que passam a fazer parte da Igreja, qualquer seja a sua origem ou língua, devem saber que têm igual direito de filhos na casa do Senhor, onde impera a lei e a paz de Cristo.
«35. Entre os dilacerantes contrastes que dividem a família humana, possa este ato solene proclamar a todos os nossos filhos, esparsos pelo mundo, que o espírito, o ensino e a obra da Igreja nunca poderão ser diversos daquilo que pregava o Apóstolo das gentes: "E vos revestistes do homem novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro; cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo e em todos" (Cl 3, 10-11).» (Pio XII, Enciclica Summi Pontificatus, n. 22, 27, 34 e 35, grifos nossos)

Em 25 de dezembro de 1942, em sua Radiomensagem de Natal, o Papa Pio XII registrou seu protesto contra o genocidio perpetrado pelos nazistas, não só contra os judeus, mas contra outras etnias como ciganos e eslavos:

«Este voto deve-o a humanidade às centenas de milhares de pessoas que sem culpa nenhuma da sua parte, às vezes só por motivos de nacionalidade ou raça, se vêem destinadas à morte ou a um extermínio progressivo.» (Pio XII, Radiomensagem Con Sempre Nuova Freschezza, n. 55, grifos nossos).

Pio XII também colaborou com a vinda de inumeros judeus para o Brasil, fugitivos da perseguição nazista. As peripecias estão narradas no livro Os Judeus do Vaticano, de Avraham Milgram, publicado pela editora judaica Imago. (É a "lista de Pio XII", se quisermos parafrasear a "lista de Schindler").

É preciso ter em mente que Pio XII era chefe de um micro-estado de apenas 44 hectares, cujas Forças Armadas reduziam-se à insignificante Guarda Suiça (certa vez Stalin perguntou: "Quantas divisões tem o Papa?"). Ademais, o Vaticano fica encravado no territorio da Italia, aliada da Alemanha no Eixo nazi-fascista. Havia o risco das tropas nazi-fascistas invadirem o Vaticano e levarem o Papa prisioneiro (como Napoleão havia feito com Pio VII, em 1812). Pio XII chegou a preparar uma renuncia por escrito que foi assinada e autenticada, de modo que ele não seria mais o Papa se viesse a cair prisioneiro do Exercito alemão*. Ele seria apenas um cidadão italiano particular, chamado Eugenio Pacelli, seu nome de Batismo. Deste modo, não se repetiria na Igreja a crise que houve com o cativeiro de Pio VII.

*Sobre o assunto, ver O Incrivel Livro do Vaticano e Curiosidades Papais, de Nino lo Bello.

1 Comments:

Anonymous Marcelo said...

Excelente post. Parabens. É sempre bom ler pessoas que perceberam a realidade dos fatos da época, sem preconceitos.

2:07 PM  

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