O Teocrata

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Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

Mário Ferreira dos Santos ou: retorno

Este blog ficou num longo ostracismo criminoso. Se já eram poucos que o visitavam, certamente menos que poucos devem ter continuado a visitá-lo.

Posto que o ano termina, nada melhor que aproveitar a vinda do próximo para reativar este cantinho agradável, onde apenas divulgamos textos que consideramos interessantes. Dessa vez, haverá uma inovação: não texto, mas áudios. Graças ao precioso Youtube, e graças ainda mais a uma gentil alma, aqui vão três breves gravações de Mário Ferreira dos Santos. Que o leitor, agora ouvinte, aproveite-as.





Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Entrevista com Mário Ferreira dos Santos

Retirado de http://www.caiubi.com.br/marioferreira/auto_retrato.htm

LADUSÃNS, S. Rumos da filosofia atual no Brasil, São Paulo, Loyola, 1976, pp. 407-428.

O livro do padre Stanislavs Ladusãns reúne uma série de enquetes de catorze perguntas feita a diversos filósofos brasileiros. As três primeiras são de caráter pessoal. As demais, reproduzidas aqui, enfocam temas filosóficos.

Missão da Filosofia na vida cultural brasileira hodierna

Posso colocar-me na seguinte posição: nós, brasileiros, por vivermos materialmente o universal humano, por não termos compromissos históricos que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tampouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma Filosofia de caráter ecumênico, uma Filosofia que corresponda ao verdadeiro sentido com que ela foi criada desde o inicio.

Parto da posição pitagórica: Pitágoras, diz-se, afirmou que era um amante da Sabedoria (sophia), da suprema Sabedoria, que cointuímos com a própria Divindade. Este afã de alcançá-la, os esforços para atingi-la, os caminhos que percorremos para obter essa suprema instrução (daí chamá-la de Mathesis Megiste, que é a suprema instrução), todo esse afanar é propriamente a Filosofia.

Assim, posso admitir que há vários caminhos, embora só haja um caminho real. Como fundamentava Pitágoras, repetido depois por Aristóteles, que a única autoridade na Filosofia é a demonstração, sendo que esta deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e até exclusivos, a Filosofia construída deste modo só pode ser uma: positiva e necessariamente concreta, que é a posição que tomo aqui.

Podemos viver o universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as idéias vindas de todas as partes, que não possa encontrar um caminho para si mesmo; temos de criar este caminho.

A minha luta é esta, dar solução aos inúmeros problemas vitais brasileiros da atualidade, porque a heterogeneidade de idéias e posições facilita a de soluções, das quais muitas não são adequadas às necessidades do Brasil. O tema é vasto e exigiria um trabalho especial.

Que fazer para que a Filosofia atinja as grandes massas populares e a juventude brasileira?

Fazer a Filosofia atingir as grandes massas populares será em primeiro lugar, obra que se cingirá a descê-la ao baixo grau de cultura de nossas massas populares. Precisamos estudar o que devemos fazer para erguê-las até à Filosofia, o que só poderá ser feito através de um desenvolvimento da cultura nacional – em linhas distintas das atuais, que tendam à Filosofia Positiva e não à Filosofia negativista e niilista que penetra em nossas escolas.

Quanto à juventude brasileira, este é o mais grave de nossos problemas: somos um país constituído de jovens, que formam a sua quase totalidade. Dado o baixo grau de cultura que temos, nossos estudantes passam a formar uma elite intelectual, o que demonstra a inferioridade em que nos encontramos.

Na História, a juventude sempre é o que decorre da sua própria natureza, apresentando aspectos positivos e negativos. Positivos, pela sua capacidade de ação e de idealismo; mas negativos, pela sua irreflexão, pelo seu despreparo e apressamento, que a leva a cair, facilmente, nas malhas dos grandes agitadores e a servir aos interesses de demagogos e políticos. Em todas as épocas da humanidade, uma parte da juventude mais ativa tendeu à luta a favor das más causas, facilitando-as.

Foram jovens que destruíram o Instituto Pitagórico, condenaram Sócrates, perseguiram Anaximandro, Aristóteles, assassinaram Hipátia de Alexandria e perseguiram Santo Alberto, S. Tomás de Aquino, S. Boaventura, quando mestres na Universidade de Paris; que uivavam pelas ruas pedindo a cabeça de Dante, de Savonarola, de Giordano Bruno; que acusavam Pasteur de “charlatão” e atiravam pedras em Einstein. Esses jovens são ativos, eficientes na sua parte destrutiva. Mas há também uma juventude construtiva.

Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará resultado.

Quais são as correntes filosóficas que a reflexão filosófica deve levar em conta hoje?

Propriamente, julgamos que todas, porque encontramos hoje, na reflexão filosófica, a restauração ou o ressurgimento de velhos erros já refutados há séculos e milênios, que passam por inovações extraordinárias para aqueles que ignoram as aquisições do passado. É necessário, assim, revisar tudo, para mostrar que muitas novidades atuais nada mais são que velhos erros já refutados, travestidos de “verdades superantes”.

As relações entre ciência e filosofia

Como a pergunta exigiria uma análise longa, sintetizar aqui o que penso, torna-se, para mim, um trabalho mais difícil do que expor as grandes contribuições que a ciência traz para as novas especulações filosóficas.

Não que esta venha modificar as linhas mestras da Filosofia Positiva e Concreta; veio, ao contrário, robustecê-las, mas trouxe contribuições que permitiram abrir campo não só para novas análises, como também para melhor colocação de outros problemas, além de uma revisão da Metodologia, sobretudo na parte da Dialética Concreta.

Trata-se da Dialética que possa de melhor modo aplicar-se à análise especulativa, para que ela não se torne meramente abstrata e sem correspondência com a realidade concreta. Basta que salientemos três pontos importantíssimos da ciência moderna. Primeiro, as pesquisas em torno da estrutura da matéria sensível, que levaram a ciência a penetrar na constituição da matéria, afastando-se o conceito de matéria do século dezenove.

Temos, assim, uma visão muito mais profunda e ampla do que aquela que os filósofos anteriores possuíam, também a Filosofia Positiva de séculos anteriores, aproximando-se a passos gigantescos da concepção que os pitagóricos haviam apresentado, e que fora considerada por muitos como extravagante, tornou-se muito mais compreensível.

Naturalmente, se alguém considera que o número é apenas o da matemática vulgar, o da extensão, da quantidade, ou o esquema da participação quantitativa, é lógico que a definição pitagórica de que as coisas são números passa a ter um sentido demasiadamente brutal e inaceitável.

Mas no momento que se compreender que número não é apenas isso, mas todo o esquema de participação de qualquer espécie de unidade, porque é a manifestação da unidade sob todos os seus aspectos e, portanto, sob todas as formas manifestativas em que se exija o numeroso e, portanto, participado, participante e logos da participação e que, segundo o logos, existem tantos números quantos logoi de participação, já muda completamente o sentido e então poder-se-á compreender que, segundo todos os possíveis aspectos em que se possa tomar a unidade, podemos construir matemáticas.

A ciência moderna, graças à penetração da Matemática, de início na parte quantitativa e depois no qualitativo – como se viu nas graduações – e nos relacionais – como se vê nos funtores – caminha hoje, inevitavelmente, para uma penetração cada vez maior no caminho que já fora percorrido pelos antigos pitagóricos.

O progresso científico processou-se e firmou-se na medida em que a ciência se matematizou; a ciência, por outro lado, separou-se da Filosofia, não devido a essa matematização, mas em virtude dos filósofos, que não compreenderam bem essa matematização, que deveria ter permanecido no campo da Filosofia Positiva, se realmente fosse concreta.

Por isso, o aparente abismo hodierno entre Filosofia e ciência pode perfeitamente ser ultrapassado, flanqueado pela Filosofia Concreta; é o que estamos fazendo com as nossas obras, apesar de muitos julgarem ser impossível a um brasileiro tentar fazê-lo.

Segundo, ainda no campo da pesquisa da estrutura da matéria, a descoberta das tensões, sobre as quais os físicos modernos, estarrecidos ante a sua realidade, procuram escamoteá-la, sem poder enfrentar, devidamente, a implicância que a aceitação desta realidade exigiria, e que os levaria a uma especulação filosófica para a qual não estão preparados.

A terceira contribuição importante é a referente à genética, que dá novos subsídios para a melhor compreensão do homem, para novos estudos antropológicos e uma nova reflexão em torno da significação do ser humano.

Poderíamos citar inúmeros outros aspectos, que também são imprescindíveis para a reflexão filosófica. Aliás, são tantos, que não caberiam, naturalmente, no espaço que temos para responder.

O que queremos apenas salientar é que devemos compreender que, das causas às leis e aos princípios de cada ciência, podemos alcançar uma sabedoria que está acima de toda ciência, uma sabedoria como a estudaram os grandes pensadores de todos os tempos, que é a “Décima Ciência” dos antigos, de que nos falava São Boaventura.

Essa Ciência, cabe-nos construí-la; será a metalinguagem do homem, unindo todos os especialistas numa visão global. Essa construção é a nossa grande tarefa atual, para que possamos aproveitar as grandes contribuições da ciência na elaboração de uma visão filosófica mais completa, mais perfeita e mais atuante apara um melhor futuro da humanidade.

Assim abriremos campo para novas análises, não mais as que colocavam mal as questões, de modo a torná-las, por isso mesmo, insolúveis e estéreis suas disputas, mas lançando novas disputas num campo mais fértil, mais criador, sob aspectos mais seguros, que poderão abrir ao homem novas perspectivas, com dados extraordinários, em benefício da cultura do homem de amanhã.

É diante deste horizonte, ante esta aurora que se anuncia, que me anima o que tenho realizado, muito embora eu não seja compreendido por muitos daqueles que se dizem amantes dessa sofia, a Matese, a sabedoria, a intuição sapiencial.

Posso, agora, completar a minha resposta ao item IV, dando, assim, o sentido da reflexão filosófica que se pode atribuir ao pensamento brasileiro, se ele quiser ser genuinamente filosófico.

Todos aqueles que, no Brasil, revelaram que possuíam mente filosófica – e não foram muito numerosos, porém brilhantes – tenderam sempre para um pensamento de caráter sintético, isto é, não ficaram totalmente presos às correntes filosóficas européias e dependentes delas. Sempre houve, entre nós, o desejo de abarcar o universal e esta característica é naturalmente justa e própria de um povo que vive em si mesmo este universal.

Por isso, o Brasil é, dos países atualmente existentes, mais capacitado para uma Filosofia universalizante ou, pelo menos, para uma nova linguagem filosófica, capaz de unir o pensamento que divergiu tão profundamente no campo já esgotado do pensamento europeu. Aqueles que não pensam assim, que não admitem essa possibilidade para nós, que continuem vivendo o seu modo de pensar. Nós preferimos, porém, divergir.

Colaboração da Filosofia para humanizar a civilização

Esse item pode-se dividir em três: 1º) a humanização da civilização atual; 2 ) a evidenciação do valor da pessoa humana e 3º) a contribuição para a paz interior e felicidade do homem.

Primeiro: hoje, sobretudo no mundo livre, graças ao surgimento de um desejo ecumênico de aproximação dos homens, a humanização da civilização pode ser obtida – em parte, naturalmente – pela colaboração da Filosofia, pela revisão honesta de todos os grandes autores do passado, que foram caricaturizados, falsificados e apresentados num sentido que não é realmente o da sua Filosofia.

Poderíamos citar aqui, desde os pitagóricos até o século passado, autores que precisam ser revisados e reestruturados, para evitar-se aquelas “fables convenues”, aquelas mentiras históricas, os mitos e as interpretações falsas que se fazem da sua obra, com o simples intuito de denegri-los ou de favorecer outras posições.

Devemos tomar a seguinte posição: procurando primeiro tudo o que nos une, depois pensemos em estudar o que nos separa, para ver se, o que nos separa, pode sofrer modificações ou acomodações, que permitam que aquilo que nos une, fomente a humanização da própria civilização. Daí decorreria, pois, inevitavelmente, a segunda parte, sobre o valor da pessoa humana que, sem dúvida, sofreu, neste século, devido ao desenvolvimento dos totalitarismos, uma afronta à sua dignidade.

De todos os lados surge este tema, que pode e deve ser reestruturado em termos positivos e concretos. Finalmente, resultaria, então, a terceira parte, porque a paz, a tranqüilidade interior, a serenidade do espírito só podem ser alcançadas quando a mente assenta plenamente na Sabedoria, alcançando aquelas verdades, que estão ao nosso alcance e que são o fundamento de nossa verdadeira felicidade.

Seguimos em suma, o preceito de Pitágoras: “Ama a verdade até o martírio; não ames, porém, a verdade até à intolerância”! Procurando o que nos une realmente com todas as outras correntes e posições filosóficas, podemos abrir caminho para uma compreensão nos aspectos em que encontramos diferenças, que, muitas vezes, são apenas acidentais e não aptas a justificar uma separação profunda.

Esse já seria um caminho de maior aproximação entre os homens, porque, na medida em que nos dedicamos à leitura dos textos, vamos compreendendo a ação nefasta dos intermediários.

Sabemos que, na Filosofia e temos milhares de exemplos para citar, os intermediários, os discípulos, em regra geral, falsificam a obra dos mestres segundo determinados interesses. Os adversários caricaturizam segundo outros interesses, e o resultado é a deformação total do verdadeiro pensamento do autor.

A obra apresentada de segunda, terceira ou quarta mão está completamente desfigurada, o que permite ao autor um ataque fácil, pois não é difícil destruir caricaturas. Há casos, na Filosofia, em que autores tiveram suas obras refutadas antes de as terem publicado, eram, pois, obras conhecidas só pelo autor.

Muitos livros meus foram “refutados” antes de serem publicado, pelo simples fato de eu pretender tratar de tal ou qual matéria. Sem nem ao menos saberem qual a minha verdadeira posição num assunto, já haviam adversários para refutá-los. Não em público, porque isso eles não têm coragem de fazer, mas nos “corredores”.

Filosofia nacional e o pensamento filosófico estrangeiro

Quando hoje se visita Portugal e se vê qual a atitude predominante neste país em relação ao seu patrimônio filosófico, espanta verificar a completa ignorância sobre o que de grande já se realizou na Filosofia Portuguesa.

Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII. Parece que Portugal nada realizou; desconhece-se que, por quase dois séculos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo.

Desconhecem-se autores como: Petrus Hispano; Antonio a Santo Domínico,.O.P.: Francisco Suárez, S.J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber, além dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja formação intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O.S.A., e Egídio da Apresentação, .O.S.A, Andréias de Almada, S.J. ; Ludovico de Sotto Mairo, O.P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O S.; Hieron; Francisco da Fonseca, O.E.S.A; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O Serrão, S.J.; Ferdnando Peres, embora nascido em Córdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Molina, S.J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi discípulo de Pedro da Fonseca, S.J., o Aristóteles português; Petrus Luís, S.J.; Antônio Carvalho, S.J.; Baltazar Álvares, S.J.; Hieronimus Fernandes, S.J.; Gaspar Gonçalves, S.J.; Ludovicus de Cerqueira, S.J.; Gaspar Vaz, S.J.; Diogo Alves, S.J.; Francisco de Gouvêa, S.J.; Ferdinando Rebelo, S.J.; Gaspar Gomes, S.J.; Benedictus Pereira, S.J.; Sebastião de Couto, S.J.; Blásio Viegas, S.J.; Emanuel de Góis, S.J.; Cosmas de Magalhães, S.J.; Pedro da Orta, S.J.; João de São Tomás, O.P., para citar apenas alguns, Portugal nos deu esta floração de filósofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e outros, porque correspondem à atual maneira de filosofar no mundo moderno.

Pergunta-se: Pode-se falar numa Filosofia de Portugal ou apenas numa Filosofia em Portugal?

Respondo: Pode-se falar, sim, numa Filosofia de Portugal e também numa Filosofia em Portugal.

Nós, brasileiros, contudo, por um espírito de colonialismo passivo, que nos domina até hoje, não cremos em nós mesmos. Só damos valor àquilo que tem origem estrangeira, e não seja de Portugal, porque também esta procedência não goza de nossa admiração. É natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifestações de completa descrença.

Não acreditar que ela existe, nem tampouco que possa surgir, é atitude geral. Ainda hoje, “famosos professores de Filosofia” em Portugal dizem que é impossível criar-se uma Filosofia autóctone naquele país.

Para o português, o que vale é: “Penso, logo não existo” ou “Existo, logo não penso”. Podemos dizer que existe uma Filosofia no Brasil, mas se quiséssemos realmente falar numa Filosofia do Brasil, tal afirmação exigiria exame. Não conhecemos obra de criação propriamente peculiar. Se estamos tentando realizar algo nesse sentido, não podemos afirmar, por motivos óbvios, que o seja.

Podemos dizer que, pela nossa completa libertação de um passado metafísico, filosófico, histórico, que pese sobre nós e entrave as nossas possibilidades de ação, estamos em condições de criar uma Filosofia Ecumênica, uma Filosofia que seja realmente a Filosofia, por entre os muitos modos de filosofar.

A heterogeneidade nas modalidades de filosofar surge nos períodos de predominância do empresário utilitário no contexto de uma cultura. Quando este predomina, prevalece a moda que penetra em todos os setores: na Filosofia, na Arte etc., como acontece no mundo atual.

Esta variação tremenda de idéias, as quais surgem de todos os lados, não revela nenhuma pujança; é ao contrário, um índice de fraqueza, como a do período final da cultura grega e alexandrina. A Filosofia Positiva (fundada na positividade do ser, que alcança a perenidade, porque atinge as leis eternas) e Concreta, precisamente, porque, captando estas leis, relaciona todos os matizes de todos os aspectos formais – para dar-lhes uma unidade superior- é necessariamente Concreta, embora não no sentido vulgar do termo.

A Ciência, felizmente, conseguiu libertar-se da moda, como o fez a Matemática; por isso, como se construiu uma Matemática, uma Ciência, também se pode construir uma Filosofia.

Em que o pensamento brasileiro pode beneficiar-se do pensamento filosófico estrangeiro; reunindo o que há de positivo em todas as grandes realizações, provenham de onde provierem, construindo, depois, uma nova concreção e oferecendo-a ao mundo.

Esta é a única possibilidade que nos cabe e que estamos em condições de realizar, muito embora a maioria de nossos intelectuais não creia nisto e negue, terminantemente, que tal seja alcançável por nós, açulando-se com sanha contra quem tentar fazê-lo.

Deve abrir-se a reflexão filosófica para uma visão transcendental da realidade, na perspectiva das razões metafísicas?

Sem uma visão transcendental da realidade não pode haver Filosofia, porque se esta se distingue da Ciência por dedicar-se esta ao estudo das causas próximas e a Filosofia às causas primeiras e últimas, fatalmente esta deverá ter uma visão transcendental da realidade ou, pelo menos, tocá-la, abordá-la.

Ora, além das causas primeiras e últimas, temos de estudar os princípios, objeto fundamental da Mathesis Megiste – dos pitagóricos que chamamos Matese em português – cuja elaboração estou realizando em obra especial, que é a Axiomática baseada em Boécio. É a Décima ciência dos pitagóricos, a Contemplação sapiencial de São Boaventura, a Sapiência de Santo Tomás etc.

Esses princípios são matéria que constitui, propriamente, o que em todos os ciclos culturais, em todas as altas religiões se chama de Sabedoria: Sabedoria infusa ou Sabedoria em que o homem participa da Divindade, ou ainda a própria Sabedoria divina que o homem pode abordar, tocar e na qual consegue penetrar. São temas que, naturalmente, exigem discussões sobre os seus principais aspectos.

Mas o que é inegável, e não poderá deixar de abranger nenhuma visão filosófica em profundidade, é que há princípios eternos, leis eternas, que dominam todas as coisas, as quais não devem ser confundidas com as leis naturais nem com as da ciência. Este estudo levará, inevitavelmente, a uma visão transcendental da realidade, e sem ele não se faz Filosofia em profundidade, mas apenas de superfície.

Esta tendência, a de uma Filosofia que não ultrapassa a imanência da esquemática – que o homem pode construir apenas dentro de sua experiência mais vulgar – predomina no mundo moderno.

Qual é a íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética; entre a teoria e a prática?


Parece-nos que aqui há duas perguntas: lª) a que interroga sobre íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética e 2ª) a íntima conexão entre a teoria e a prática.

Responderei à primeira, depois à outra. As dificuldades no campo da Gnosiologia, da Metafísica, inclusive no da Ética, surgem naquele filosofar que coloca o homem quase como um ser estranho ante o universo, o qual é impermeável para ele. Coloca, assim o homem numa situação de ser completamente ilhado, bloqueado, sem a menor possibilidade de penetração mais profunda.

As conseqüências deste pensamento pessimista, negativista, são as seguintes: não é possível, com os nossos meios cognoscitivos, alcançar o que nos transcende e dar, também à própria Ética, uma visão transcendental. Desta forma existe a tendência a considerar todo o filosofar do homem apenas como uma obra humana -–restringida, portanto, aos limites de nossa experiência – fundamentada nos dados de nossos sentidos e meios limitados de conhecimento.

Chega-se, ademais, à conclusão de que todo e qualquer esquema que construamos jamais corresponde à realidade que nos ultrapassa. Estamos em pleno agnosticismo, ceticismo, pessimismo, ficcionismo, pragmatismo, materialismo, niilismo, “desesperismo”; são conseqüências que surgiram do filosofar moderno.

Portanto, inegavelmente, a reflexão filosófica deve abrir-se para uma visão transcendental da realidade, sob pena de nos perdermos em armadilhas feitas por nós mesmos, afirmando uma deficiência que, na verdade, não temos.

A segunda parte da pergunta é importantíssima. Surgem nos gregos as discussões em torno da teoria e da prática, da Filosofia e da Ciência Especulativa, da Filosofia e da Ciência prática.

Avassalaram a atenção dos filósofos de maior responsabilidade intelectual e, apesar dos grandes trabalhos realizados – que fazem a nítida distinção entre a teoria e prática – que chegaram até nós, a maior parte deles é completamente desconhecida para aqueles que não tem nenhuma ligação com a Filosofia Positiva e Concreta, a qual pertence aos grandes ciclos culturais da humanidade.

Resultado: estamos hoje vivendo uma completa confusão entre teoria e prática. Estabelece-se determinadas proposições teóricas, julgando-se que elas são perfeitamente práticas e vice-versa. Algumas proposições, extraídas exclusivamente da prática, passam a constituir verdadeiros axiomas teóricos. O resultado é que vivemos hoje num mundo de utopias e quimeras; como conseqüência, há desilusões, cujo resultado final é desespero.

A Filosofia é uma ciência objetiva ou uma produção pessoal, puramente subjetiva, do pensamento?

Aqui está um ponto de partida, verdadeiro divisor de águas. Desde o momento em que nos coloquemos na posição de quem pensa que a Filosofia é mera produção pessoal, puramente subjetiva do pensador, pomos aquela no campo da Estética.

Mas se admitimos que a Filosofia é uma ciência objetiva, isto é, uma busca humana da sophia suprema, que nos ultrapassa e transcende, ela adquire uma feição completamente distinta. Em todos os ciclos culturais, a Filosofia Positiva e Concreta é uma ciência objetiva. Em todos os momentos de decadência ou refluxo, que são vários, ela se torna puramente subjetiva.

A Filosofia Moderna está caindo no subjetivismo. Vimos até a tendência de um Heisenberg querendo colocar a própria Ciência no subjetivismo, pela sua teoria da indeterminação. Há necessidade de esclarecer-se, sobretudo para aqueles que querem fazer Filosofia, o seguinte: se desejam fazer obra puramente subjetiva, dediquem-se à Estética e deixem em paz a Filosofia, assim como se pede aos positivistas que façam Ciência e não Filosofia, porque são coisas que devem ser distinguidas, cuja confusão só atrasa o progresso intelectual da humanidade.

Filosofia exige demonstração e não meras asserções. Ademais, não devemos confundir filósofo com pensador que também trata de Filosofia – e muito menos ainda com professor de Filosofia. Em nossa época, o professor já se julga “dono” da Filosofia e, neste caso, há o perigo de se pensar que o fim é uma Filosofia de professores para professores de Filosofia.

Que pensar sobre o problema do ateísmo contemporâneo?


Este tema é de uma vastidão tremenda, já que o ateísmo contemporâneo não surge a rigor de uma especulação filosófica, mas sim, de certas decepções de caráter mais ético do que filosófico. A meu ver, o ateísmo não surge, propriamente, em torno do Deus Uno e de seus atributos, mas, em torno dos atributos do Deus Treino, ou Deus pessoal ou dos atributos morais de Deus.

Não conheço nenhum trabalho, de nenhum ateísta, que se limite a atacar, especificamente, o Deus Uno. Conheço agnósticos e cépticos, mas não ateístas que tomem uma posição definitiva, negadora da possibilidade de um Ser Supremo. O ateísmo é sempre o produto de uma má colocação do problema de Deus.

Como “na Filosofia não há questões insolúveis, mas apenas mal colocadas”, o ateísmo moderno parece uma questão insolúvel, porque é mal colocada. Todas as ocasiões em que tive a oportunidade de me encontrar com ateístas, bastou-me pedir-lhes que descrevessem o que entendiam por Deus, para, nessa descrição, verificar quais as razões de seu ateísmo.

Foi-me fácil afastá-los de sua posição e colocá-los na aceitação de um Ser Supremo, o que é, para nós cristãos, o ponto de partida para uma total recuperação.

Em que sentido a reflexão filosófica pode ter tonalidade cristã? Pode o cristianismo prestar benefícios ao filósofo?

Eis também outra questão que, bem colocada, é de solução fácil. O ponto de partida está em saber o que se entende por tonalidade cristã. Se considerarmos Cristo sob um aspecto, no qual podemos encontrar-nos quase todos, isto é, representando Ele o que o homem tem de mais alto na sua forma perfectiva, caminhando para a Divindade – ou mesmo, neste sentido, reaproximando-se do Ser Supremo – podemos afirmar que a reflexão filosófica não pode deixar de ter uma tonalidade cristã.

Não pode haver uma reflexão verdadeiramente filosófica que não erga o homem do menos para o mais. Portanto, o Cristianismo presta e sempre prestou benefícios ao filósofo, razão pela qual a Filosofia teve o seu maior desenvolvimento sob a égide do Cristianismo. Será também apenas através da concepção cristã, que se poderá realizar uma Filosofia superior capaz de unir os homens e fazê-los se compreenderem, pois Cristo representa, no homem, tudo quanto ele tem de mais elevado.

Já dizia Pitágoras que a verdadeira piedade – aliás, a eusébeia – era a justa e nobre veneração da Divindade, consistindo aquela na prática de nossos atos perfectivos superiores. Aproximando-nos, pois, de Deus na medida em que praticamos, de modo mais perfeito, os nossos atos. Em suma: a eusébeia (a verdadeira piedade), para os pitagóricos, é a assemelhação a Deus.

Este conceito não é exclusivo dos pitagóricos, mas de revelação universal, de todos os ciclos culturais. A verdadeira Filosofia caminha paralela à Religião, porque, se esta é o caminho para elevar o homem a Deus pelas ações, aquela é o caminho para elevar o homem – pela meditação, pelo pensamento, pela pesquisa, pela especulação – também, a Deus. Por isso, a Religião pertence à vida prática e a Filosofia sobretudo à vida especulativa – o que não impede que a Filosofia especule também sobre a vida prática e nela atue dentro das normas desta.

Isto corresponde à vontade, ao entendimento humano na sua ação em busca do bem; mas a Filosofia é a vontade e a especulação em busca da verdade. Consequentemente, o homem, à medida que especula pela verdade, aproxima-se do Ser Supremo e à proporção que busca o seu justo bem aproxima-se de Deus.

Esta é a razão por que o divórcio entre Filosofia e Religião – que se procurou fazer no mundo ocidental como também já se fez em outros ciclos culturais, em situações correspondentes a esta – é apenas uma covardia, a ser substituída por uma atitude heróica, enfrentando, mostrando os defeitos dessa posição e propondo os verdadeiros caminhos de ascensão.

Visto sob este aspecto, o Cristianismo é universal, porque pertence a todos os ciclos culturais. Ele foi o pensamento verdadeiro mais profundo de todos os ciclos culturais, sendo, por isso, inseparável da religião do homem nos seus aspectos perfectivos. É o homem enquanto Vontade, Entendimento e Amor, correspondendo, na concepção católica, às Três Pessoas da Trindade.

Caminhando neste sentido, retiraremos o homem do pântano em que está afundado, do estado de desespero no qual imergiu, podendo tornar a oferecer-lhe uma nova perspectiva e esperança, que poderá solidificar uma fé verdadeira e robusta.

Domingo, Janeiro 07, 2007

Entrevista com o Pe. Gabriele Amorth

Retirada da revista Catolicismo.

Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista

Exorcista da diocese de Roma: alerta quanto ao importante avanço do demônio

O Revmo. Pe. Gabriele Amorth, da Pia Sociedade de São Paulo, muito apreciado na Itália por seus livros sobre Nossa Senhora e sua atividade jornalística - seu programa na Radio Maria peninsular conta com 1.700.000 ouvintes -, tornou-se mundialmente conhecido com o lançamento de sua obra Um exorcista conta-nos, em 1990. Tal obra alcançou notável êxito editorial na Itália, tendo sua tradução portuguesa obtido várias edições. A partir de então, a mídia internacional vem focalizando a atuação desse sacerdote, nomeado Presidente da Associação Internacional dos Exorcistas.

Solicitadíssimo por inúmeras pessoas necessitadas de amparo contra as insídias diabólicas, o Pe. Amorth exerce intenso e extenuante trabalho apostólico. Mesmo assim, marcou um horário para receber nosso enviado especial, Sr. Nestor Fonseca, a quem acolheu amavelmente, juntamente com o fotógrafo, Sr. Kenneth Drake, na Casa-Mãe da Pia Sociedade de São Paulo, na Cidade Eterna, no dia 26 de junho último. E durante aproximadamente duas horas foi respondendo, com a segurança de um zeloso e experimentado exorcista, às múltiplas e complexas questões que lhe foram sendo apresentadas. Abaixo transcrevemos partes da substanciosa entrevista.

* * *

Catolicismo - Todas as pessoas sofrem as insídias e as tentações diabólicas, acontecendo de uma mesma tentação voltar a se repetir muitas vezes. Podemos dizer que tal tentação torna-se um estado de perseguição do demônio?

Pe. Amorth - Devemos distinguir a ação ordinária da ação extraordinária do demônio. A ação ordinária é a de tentar-nos. Por conseguinte, todo o campo das tentações pertence à ação ordinária diabólica à qual todos somos sujeitos e o seremos até a morte. A tal ponto somos sujeitos a essas tentações, que Jesus Cristo, fazendo-se Homem, aceitou ser tentado por Satanás, não apenas nas três tentações do deserto, mas durante toda a sua vida, como também ocorreu com Maria Santíssima. Isto porque a tentação faz parte da condição humana. Esta é a ação ordinária do demônio, como dizia o Catecismo de São Pio X, "por ódio a Deus, [o demônio] tenta o homem ao mal". Ou seja, por ódio a Deus, o demônio gostaria de arrastar-nos todos para o inferno.

A ação extraordinária, por sua vez, é uma ação rara. É aquela na qual o demônio causa distúrbios particulares. Portanto, não se trata de simples tentação. Distúrbios particulares que podem chegar à possessão diabólica.

Catolicismo - Que tipos de distúrbios podem ocorrer? V. Revma. poderia classificá-los e, ao mesmo tempo, dar as razões da existência de tais distúrbios?

Pe. Amorth - --- Não existem dois casos iguais. Já fiz mais de 40 mil exorcismos. Entendamo-nos. Não a 40 mil pessoas, pois em muitas delas eu fiz centenas e centenas de exorcismos. Pois livrar uma pessoa do demônio, geralmente, constitui um trabalho MUITO lento.

Como escrevi em meu livro Um exorcista conta-nos, fico bastante contente quando uma pessoa se livra do demônio, após quatro ou cinco anos de exorcismos, com a média de um exorcismo por semana. Conheço pessoas que ficaram livres do demônio após 12 ou 14 anos de exorcismos seguidos. Portanto, muitos exorcismos feitos à mesma pessoa.

Uma pessoa pode levar vida normal com sofrimentos, de maneira que aqueles com os quais convive nem se dêem conta de que está possessa. Apenas quando sobrevêm os momentos de crise, então ela se comporta de uma maneira inteiramente anormal, não podendo cumprir seus deveres de trabalho, de família, sem excessiva dificuldade. Em alguns casos, a pessoa pode ser assaltada pelo demônio, digamos, 24 horas ao dia. Em tal caso, a pessoa não pode fazer nada. Mas são casos raríssimos.

Normalmente o demônio apenas em certos momentos investe contra a pessoa e se manifesta, sobretudo quando é obrigado a fazê-lo durante o exorcismo.

Catolicismo - E qual é a causa para que o demônio permaneça mais ou menos tempo na mesma pessoa?

Pe. Amorth - A expulsão do demônio depende de uma intervenção extraordinária de Deus. Ou seja, cada expulsão do demônio constitui um verdadeiro milagre. E Deus pode praticá-lo a qualquer momento. Nós, exorcistas, podemos prever, através de algo que nos oriente, quanto tempo ser-nos-á necessário para expulsar o demônio de uma pessoa. Por exemplo, uma criança. É mais fácil expulsar o diabo de uma criança que de um adulto. O mesmo passa-se em relação a uma pessoa que nos procura logo após ter sido possuída, uma vez que o demônio ainda não teve tempo de deitar raízes naquela pessoa. O primeiro exorcismo fala em "erradicar e expulsar o demônio".

Ao contrário, torna-se muito mais difícil quando sou procurado por pessoas de 50, 60 anos, e ao fazer-lhes exorcismos falando com o demônio - pois eu falo diretamente com o demônio quando a pessoa está endemoninhada -, descubro que às vezes a pessoa era criança ou ainda se encontrava no próprio seio materno quando sofreu os primeiros ataques do Maligno.

Catolicismo - V. Revma., há pouco, referindo-se à expulsão do demônio de um possesso, disse que ela constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus...

Pe. Amorth - Certo. A libertação de uma pessoa da ação do demônio constitui sempre uma intervenção extraordinária de Deus. Aliás, tenho disso um exemplo, ocorrido na semana passada. Um caso muito difícil de possessão diabólica e eu tinha razões suficientes que levavam a prever muitos anos de exorcismos para se libertar aquela alma das garras do demônio.

Acontece que tal pessoa foi ao Santuário de Lourdes, na França, tomou banho na piscina, acompanhou a procissão do Santíssimo Sacramento, rezou muito. Resultado: um milagre! Voltou para casa completamente livre da possessão.

Catolicismo - V. Revma. poderia dar uma explicação a nossos leitores, ainda que sucinta, da necessidade do exorcismo e dos exorcistas?

Pe. Amorth - O exorcismo é constituído de várias orações oficiais feitas em nome da Igreja, e Deus ouve essas orações. Com efeito, existem tantas razões para isso! O exorcismo depende muito das causas que determinaram a possessão diabólica, uma vez que estas exercem muita influência sobre o possesso. Dou-lhe um exemplo simples.

Se uma pessoa se consagrou a Satanás e fez o pacto de sangue com ele, é fácil entender que ela praticou um ato voluntário de doação de si mesma ao Maligno. Então, libertar tal pessoa torna-se muito mais difícil, faz-se necessário muito mais tempo do que o empregado para libertar um inocente, que foi vítima de um malefício causado por outra pessoa.

Catolicismo - Pelo que V. Revma. afirmou acima, o exorcismo não constitui o único modo de uma pessoa fazer cessar a possessão. Haveria outras? Porque com a atual dificuldade em encontrar exorcistas…

Pe. Amorth - Pode-se libertar da possessão com o exorcismo, que é uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos exorcistas - pouquíssimos, quase inencontráveis. Outra forma, aberta a todos, são as orações de libertação. No final de meus livros eu acrescento orações de libertação que sugiro. As orações mais eficazes são as de louvor, glória a Deus. Assim nós também muitas vezes, nos próprios exorcismos, recitamos o Credo, o Glória, o Magnificat, Salmos, trechos da Bíblia, o Evangelho em que Jesus liberta os endemoninhados. Elas têm grande eficácia.

Catolicismo - Os demônios têm nomes?

Pe. Amorth - Quando constringidos pelo exorcista a dizer seus nomes, costumam apresentá-los. Os que têm nomes bíblicos ou de tradição bíblica, são demônios fortes e é muito mais trabalhoso exorcizá-los. Continuamente dão nomes como Satanás, Asmodeu, Lilite, denominações igualmente importantes. O nome Lúcifer é de tradição bíblica e não um nome bíblico. Ou seja, nós o atribuímos à Bíblia, mas esta não cita Lúcifer. Encontramos freqüentemente um demônio de nome Zabulom. O nome Zabulom, encontramo-lo na Bíblia, mas nunca como demônio. Zabulom é uma das 12 tribos de Israel. Há um demônio, porém, que tomou posse desse nome e é um demônio fortíssimo.

Encontramos nas Sagradas Escrituras o demônio Asmodeu. Deparo-me muitíssimas vezes com ele, porque é o demônio que destrói os casamentos. Ele rompe os matrimônios ou os impede. É tremendo!

Uma pessoa possuída ou possessa, in genere, pode estar dominada por muitos demônios. Temos um exemplo no Evangelho, quando Nosso Senhor interroga os endemoninhados de Gerasara e pergunta: "Como te chamas?" E o demônio responde: "legião", porque são muitos.

Lembro o caso de um demônio fortíssimo que possuía uma freira, uma possessão tremenda (às vezes, são vítimas que se oferecem pela conversão dos pecadores e sofrem esta espécie de possessão). Quando eu lhe perguntava o número, respondia-me: "Milhares!" "Milhares!" "Milhares!"

Catolicismo - A TV, de um modo geral, com programas incentivadores de práticas de magia e espiritismo, bem como desagregadores das tradições cristãs e da família, têm colaborado ponderavelmente para o incremento do satanismo? E o rock satânico, tem concorrido para a disseminação do poder do demônio?

Pe. Amorth - Quando foi inventada a televisão, o Padre Pio ficou furioso. E a quem lhe dizia que se tratava de uma magnífica invenção, ele respondia: "Verá que uso farão dela!" Com efeito, a TV é corrupção da juventude e igualmente dos velhos! Ouso acrescentar: é também a corrupção dos padres, dos sacerdotes e das freiras. Com os espetáculos contínuos de sexo, de horror, de violência... A Internet é ainda pior, a Internet é ainda pior, repito.

Certa vez, ao fazer um exorcismo, falando com o demônio, ele dizia: "A televisão, fui eu que a inventei!" Eu afirmava: "Não! Tu és um mentiroso! A televisão é uma grandíssima invenção do homem. Tu inventaste o mau uso dela, a fim de corromper as pessoas".

Todos sabemos que existe o nudismo. Todos sabemos que haverá [já houve, em Roma], dentro de alguns dias, uma manifestação de homossexuais! Uma demonstração do vício, o pecado que isso representa! Ali está, não há dúvida, a ação do demônio.

No caso acima, existe a atividade ordinária do demônio de tentar o homem, mas também a atividade extraordinária do demônio, que se serve da ocasião para possuir as pessoas que promovem essas coisas.

Quanto ao rock satânico, é tremendo. Pode conduzir à possessão diabólica porque ensina o culto a Satanás. E pouco a pouco, através do culto a Satanás, chega-se a ser possuído por ele. Satanás é esperto, introduz-se sem nunca fazer-se sentir. Pode-se começar com simples jogos de cartas, de tarôs, e, através dos jogos, saber se vai ganhar na loteria, adivinhar acontecimentos, doenças de amigos. E, pouco a pouco, vai-se sendo possuído pelo demônio. O diabo age assim: atua sem se fazer sentir...

Catolicismo - As doutrinas marxistas e sua aplicação concreta contribuem, de modo considerável, para a difusão do satanismo na sociedade contemporânea?

Pe. Amorth - Sim. Tenhamos presente que assim como o demônio pode possuir uma pessoa, pode igualmente possuir uma classe de pessoas, pode assumir o governo de uma nação.

Exemplifico. Estou convicto de que Hitler, Stalin, eram possuídos pelo demônio e que o nazismo - em massa - era possuído pelo Maligno. Auschwitz, Dachau: não podem ser explicadas as atrocidades cometidas nesses lugares sem se cogitar numa perfídia verdadeiramente diabólica. E não há nenhuma dúvida de que o demônio influiu muitíssimo no mundo cultural. O demônio quer distanciar o homem de Deus.

Por outro lado, tivemos pela primeira vez na História um fenômeno profetizado em Fátima - 1917, 13 de julho -, a aparição mais importante de Nossa Senhora em Fátima, aquela na qual encontram-se os segredos e em que Nossa Senhora fez ver o inferno. Nessa ocasião, entre outras coisas, profetizou: "Se não obedecerem minhas palavras, a Rússia espalhará seus erros pelo mundo". Nunca aconteceu que o povo tivesse sido instruído para o ateísmo. Em Moscou, entretanto, existia uma Universidade do ateísmo, na qual se formavam os participantes do Partido e se ensinava como atuar para destruir a religião em uma nação religiosa. Jamais, no passado da humanidade, ensinou-se o ateísmo. Foi uma novidade de nosso século, devido ao comunismo que espalhou o ateísmo por todo o mundo.

Catolicismo - A falta de fé seria a principal e mais profunda causa do aumento do poder satânico no mundo atual?

Pe. Amorth - Sempre. É matemático. Examinando toda a história do Antigo Testamento, a história de Israel, quando esta abandona Deus, entrega-se à idolatria. É matemático, quando se abandona a Fé, entregamo-nos à superstição. Isto aplica-se, em nossos dias, a todos nós do mundo ocidental.

Tomem as velhas nações da Cristandade medieval. A católica Itália, a França, a Espanha, a Áustria, a Irlanda, que uma vez foram nações cujo catolicismo era forte. Agora o catolicismo tornou-se fraquíssimo. Na Itália, de 12 a 14 milhões de italianos freqüentam atualmente sessões de bruxaria e cartomantes. Há no país aproximadamente 65.000 bruxos e cartomantes, muito mais que o número de sacerdotes.

Existem também na Itália de 600 a 700 seitas satânicas. E 37% da juventude italiana participaram algumas vezes de sessões espíritas, acreditando ser um mero jogo...

Um movimento dirigido por um sacerdote ensina aos pais como falar com seus filhos falecidos... Isto é espiritismo puro. Em outros tempos o espiritismo exercia-se através de um médium em estado de transe, e o médium evocava a pessoa.

O espiritismo consiste em evocar um defunto para interrogá-lo e obter dele respostas. Agora não é mais necessária a presença do médium, pois pratica-se o espiritismo através do gravador, do televisor e da Internet... Os dois meios mais usados são gravadores e escritura automática. A página mais lida dos jornais é o horóscopo... e os quotidianos não são comprados pelos analfabetos. São os industriais, os políticos, que não tomam decisões sem antes ouvir um bruxo. Ou seja, sempre que diminui a Fé, aumenta a superstição.

Por exemplo, faz-se um referendum na Itália para a defesa da família, vence o divórcio; faz-se um referendum em defesa da vida, vence o aborto. E isto na católica Itália... Não nos espantemos, Satanás é poderoso. Nosso Senhor o chama por duas vezes "Príncipe deste Mundo". São Paulo o chama "Deus deste mundo". São João diz: "Todo mundo jaz sob o poder do Maligno". E quando o demônio tenta Nosso Senhor, leva-O ao alto do monte, fá-Lo ver os reinos da Terra, e diz: "São meus, e os dou a quem quero e se tu te ajoelhares diante de mim..." . Jesus não lhe responde: "Tu és um mentiroso, todos os reinos são de meu Pai. É Ele quem dá a quem quiser". Não, não. A Escritura diz: "Tu ajoelhar-te-ás somente ante teu Deus". Nosso Senhor não contradiz o demônio.

Hoje tantos ajoelham-se diante de Satanás para obter sucesso, prazer, riquezas - as três grandes paixões do homem! E o demônio oferece o sucesso, o prazer, a riqueza, mas sempre unidos a terríveis sofrimentos. Vemos o sucesso, vemos o dinheiro. Imaginamos que aquela pessoa é feliz. Não é verdade, pois o demônio só pode praticar o mal. Por conseguinte, as pessoas que se entregam ao demônio têm o inferno nesta vida e na outra. Aqui um inferno dourado, mascarado de sucesso, e depois... o fogo eterno!

Catolicismo - Qual a influência do chamado progressismo católico nessa decadência da virtude teologal da fé?

Pe. Amorth - Hoje, infelizmente, existem teólogos e exegetas que negam até mesmo os exorcismos de Nosso Senhor. No meu último livro - Exorcismos e Psiquiatras - dedico um capítulo aos exorcistas franceses; apenas cinco de um total de 105 crêem e fazem exorcismos, os outros... não crêem neles. Em um de seus congressos, convidaram para falar exegetas que negam os exorcismos de Nosso Senhor. Afirmam eles tratar-se de uma linguagem apenas cultural e que o Redentor adaptava-se à mentalidade da época, mas que, na verdade, aquelas pessoas eram apenas loucas e não possessas.

Essas prédicas de exegetas influíram nos espíritos dos Bispos, dos padres etc.

Catolicismo - Quais as razões que levam Bispos católicos a se desinteressarem inteiramente da temática demônio, abandonando assim os fiéis à ação preternatural, crescente nos dias atuais?

Pe. Amorth -- Não há razão para se impressionar com minha resposta. No Evangelho, Nosso Senhor diz: "O demônio é fortíssimo". Isto está muito claro. É fortíssimo e conseguiu, com sua habilidade, fazer-nos crer que [ele] não existe, coisa que mais lhe agrada. Porque pôde realizar isso nestes séculos - pois já faz três séculos que faltam exorcistas. E isso explica meu combate aos Bispos, aos padres que não crêem na ação do demônio. Eu os critico fortemente.

Julgo que 90% dos padres e dos Bispos não crêem na ação extraordinária do demônio. Talvez existam alguns! TALVEZ, TALVEZ. No Concílio Vaticano II, alguns Bispos já afirmavam que não existia!... Durante o Concílio, hein! Diante da Assembléia Conciliar! Repito: tenho por certo que 90% dos Bispos e sacerdotes não crêem na ação extraordinária do demônio.

Razão pela qual há três séculos, na Igreja latina, verifica-se uma escassez espantosa de exorcistas. Na Alemanha, nenhum! Na Áustria, nenhum! Na Suíça, nenhum! Na Espanha, nenhum! Em Portugal, nenhum! Quando eu digo "nenhum", não estou afirmando que não existam um, dois, mas de tal maneira não são encontrados, que os considero como inexistentes.

Em uma cidade européia, importante centro de peregrinação, temos uma livraria Paulina. Quando lá estive, dei-me conta, através de um livreiro amigo, que dispunham de meu livro na livraria, mas escondido. "Os Bispos disseram-nos para tê-lo escondido, e não expô-lo! De não expô-lo!"

Por outro lado, há muitos Bispos que não nomearam exorcistas. Um Prelado famoso - o Cardeal Todini, que foi Arcebispo de Ravena -, numa transmissão televisiva jactou-se de nunca ter nomeado exorcistas! Esta, infelizmente, é a situação na qual nos encontramos.

Catolicismo - V. Revma. baseia-se em alguma escola espiritual, em algum Santo, para tomar uma posição tão louvável quanto destemida?

Pe. Amorth - Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX. Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas. Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.

Catolicismo - Pe. Amorth, que conselho V. Revma. poderia dar-nos e a nossos caros leitores para nos precavermos contra eventuais malefícios (macumbas, por exemplo) que se queiram fazer para nos prejudicar?

Pe. Amorth - O conselho número um consiste em ter fé. Depois, viver na graça de Deus. Se se vive em estado de graça, está-se protegido, é mais difícil que a macumba nos atinja. Porém, se se é realmente atingido, é necessário recorrer-se aos exorcismos, a muitas orações, a muitos sacramentos e, com a graça de Deus, se é libertado. Mas pode ser que Deus permita que se continue no estado de possessão, para o bem espiritual da própria pessoa. Assim, São João Crisóstomo afirma que o demônio, malgrado ele próprio, é o grande santificador das almas…

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

Retirado do livro de Eckermann, Conversações com Goethe. Trad. de Luís Silveira, ed. Vega.

Quarta-feira,
15 de Outubro de 1825.

Fui encontrar esta tarde com Goethe muito bem disposto e tive a satisfação de ouvir mais uma vez da sua boca opiniões importantes. Falamos do estado da nova literatura da qual Goethe disse as palavras que se seguem:

"Falta de caráter de cada uma das personagens que investigam e escrevem", disse ele, "é a origem de todos os males de nossa literatura hodierna.

"Especialmente na crítica esta falta de caráter é prejudicial, pois espalha falsidades com o nome de verdades ou nos dá uma pobre verdade às custas de coisas grandiosas, que nos fora bem mais grato conhecer completamente.

"Até hoje o mundo acreditava no sentido épico duma Lucrécia, de um Mucius Scaevola e agitava-se e entusiasmava-se por eles. Mas eis que vem agora a crítica histórica e diz que tais personagens nunca viveram, e que não passam de ficções e fábulas criadas pelo alto espírito dos romanos. De que nos serve, porém, uma verdade tão pobre?! Se os romanos foram suficientemente grandes para efabular tais coisas, devemos também ser pelo menos tão grandes que nelas acreditemos.

"Até hoje tinha sido para mim sempre um prazer acreditar num episódio do século XIII, aquele em que o Imperador Frederico II, tendo tido de tratar assuntos com o Papa, deixara a Alemanha do Norte aberta a incursões inimigas; hordas asiáticas penetraram nela e chegaram até a Silésia; mas o Duque de Leignitz derrotara-as completamente. Os asiáticos dirigiram-se depois para a Morávia, mas foram aí batidos pelo Conde de Sternberg. Estes heróis viviam na minha imaginação como os grandes salvadores da Nação Alemã. Mas agora vem a crítica histórica e diz-nos que estes heróis se sacrificaram inutilmente porque o exército asiático retiraria em breve e se afastaria por si próprio. Assim se reduz ao nada um grande episódio patriótico e ficamos desolados por completo."

Depois destas opiniões sobre críticos da História, Goethe falou acerca de investigadores e escritores doutra espécie.

"Nunca teria conhecido a miséria dos homens e sabido como poucos se preocupam com os grandes objetivos", disse ele, "se não tivesse feito a prova com os meus estudos de ciências naturais. Reparei que para a maior parte deles a ciência só importa como modo de vida e que adoram até o erro desde que à custa dele possam viver.

"Com as Belas Letras o caso não é diferente. Também nelas os grandes ideais e o sentido puro do que é verdadeiro e bom e o desejo de expansão destas coisas raras vezes surge. Elogia-se e suporta-se um segundo, porque se quer ser também suportado e elogiado por ele, e a verdadeira grandeza não importa a estes literatos que até gostariam de a extinguir do mundo, justamente para que eles pudessem conseguir a importância que não têm. A massa geral é assim, e os que dela sobressaem não são muito melhores.

"A. W. von Schlegel poderia ter sido muito importante dado o seu gênio e erudição enciclopédica. Mas a sua falta de caráter não permitiu que a nação recebesse a extraordinária influência dele nem que lhe desse a atenção devida.

"Precisamos de um homem como Lessing; donde vem a grandeza deste senão do seu caráter e de sua constância! -- Homens tão inteligentes e tão cultos como ele há em quantidade; mas onde há um caráter desta natureza?

"Há muitos homens inteligentes e bastante sabedores, mas simultaneamente tão cheios de orgulho que gostam de se fazer admirar pelas massas de curta visão como pessoas espirituosas, e não se envergonham nem se temem de nada, nem consideram coisa alguma sagrada.

"Por isso tem muita razão Madame Genlis quando protesta contra as liberdades e gracejos de Voltaire, pois, em boa verdade, por muito cheios de espírito que sejam nenhuma melhoria trouxeram ao mundo e nada sobre tal fundamento se pode construir. Antes, pelo contrário, pode ser bem prejudicial, porque desnorteia os homens e lhes tira o apoio indispensável.

"E para mais -- que conhecimento alcançamos, e que objetivos conseguimos com todos os nossos motejos?!

"O homem não nasceu para resolver os problemas do mundo, mas sim para investigar a que importa o problema e parar logo nos limites do que é compreensível.

"Medir os problemas do Universo não é coisa permitida às suas faculdades e querer trazer ao mundo razão é para as suas possibilidades trabalho em vão. A razão dos homens e a razão de Deus são duas coisas muito diferentes.

"Quando defendemos a liberdade do homem fazemo-lo sob a égide da omnisciência divina, pois visto que Deus sabe o que eu farei, terei de proceder como ele sabe.

"Digo isto só como sinal do pouco que sabemos e de que se não deve tocar nos segredos divinos.

"Devemos também só exprimir pensamentos superiores que tragam bem ao mundo. Os outros devemos conservá-los para nós, e devem iluminar aquilo que fazemos com um modesto raio de Sol, quando se vai esconder no poente."

Segunda-feira, Janeiro 01, 2007

Rodrigo Pedroso - Pio XII e o nazismo

Gentilmente cedido pelo autor. A nota sobre a carta-renúncia de Pio XII é minha, mas a coloquei a partir de uma indicação de leitura do próprio Rodrigo.

Não existe fonte historica alguma que comprove ou sugira que a Santa Sé entrou em acordo com a Alemanha Nazista para não tomar conhecimento do holocausto.

O que houve foi uma Concordata assinada entre a Santa Sé e a Alemanha, em 20 de julho de 1933. O que é uma concordata, no direito canonico internacional? Concordata é um documento em que a Igreja, na qualidade de autoridade eclesiastica, e o Estado, na qualidade de poder secular, regulam e delimitam suas relações mutuas e suas atribuições reciprocas. É um documento para impedir que uma autoridade interfira nas atribuições de outra, e vice-versa. Durante os seculos, a Igreja assinou diversas concordatas. A mais recente concordata foi assinada entre a Santa Sé e a Republica Portuguesa, em 2004 (ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Concordata_de_2004)

A edição do L'Osservatore Romano (o diario oficial do Vaticano), de 2 de julho de 1933, esclarecia expressamente aos fiéis que a assinatura da Concordata não deveria ser interpretada em sentido algum como aprovação da ideologia nazista.

O principal objetivo da Concordata firmada pela Santa Sé em 1933 era garantir aos catolicos da Alemanha a liberdade religiosa. Todavia, o governo nazista desrespeitou a Concordata. Repetidas violações aos direitos dos catolicos alemães levaram o Papa Pio XI a condenar a ideologia nazista como contrária à Fé catolica e ao direito natural, na Enciclica Mit Brennender Sorge, assinada em 14 de março de 1937. A Enciclica está disponivel, em inglês, no sitio eletronico do Vaticano: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_14031937_mit-brennender-sorge_en.html. Nesta Enciclica, o Papa proclamou ao mundo o que o nazismo realmente era: uma arrogante apostasia de Jesus Cristo, a recusa de seu Evangelho e de sua obra de Redenção, a idolatria da raça e do Estado, a nulificação da liberdade e da dignidade humana.

Em 20 de outubro de 1939, em sua primeira Enciclica, Summi Pontificatus, o Papa Pio XII não deixou de recriminar o ressurgimento do paganismo e o racismo, na epoca representados pelo nazismo:

«A tão decantada laicização da sociedade, que tem feito progressos cada vez mais rápidos, subtraindo o homem, a família e o Estado ao benéfico e regenerador influxo da idéia de Deus e do ensino da Igreja, fez ressurgir, em regiões onde por espaço de tantos séculos brilharam os fulgores da civilização cristã, indícios, cada vez mais claros, mais distintos e angustiosos de um paganismo corrompido e corruptor. (...)
«27. O primeiro desses erros perniciosos, hoje largamente difundidos, é o esquecimento daquela lei de caridade e solidariedade humana, sugerida e imposta, quer pela identidade de origem, e pela igualdade da natureza racional em todos os homens, sem distinção de povos, quer pelo sacrifício da redenção oferecido por Jesus Cristo sobre a cruz ao Pai celeste em favor da humanidade pecadora. (...)
«Todos aqueles que passam a fazer parte da Igreja, qualquer seja a sua origem ou língua, devem saber que têm igual direito de filhos na casa do Senhor, onde impera a lei e a paz de Cristo.
«35. Entre os dilacerantes contrastes que dividem a família humana, possa este ato solene proclamar a todos os nossos filhos, esparsos pelo mundo, que o espírito, o ensino e a obra da Igreja nunca poderão ser diversos daquilo que pregava o Apóstolo das gentes: "E vos revestistes do homem novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro; cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo e em todos" (Cl 3, 10-11).» (Pio XII, Enciclica Summi Pontificatus, n. 22, 27, 34 e 35, grifos nossos)

Em 25 de dezembro de 1942, em sua Radiomensagem de Natal, o Papa Pio XII registrou seu protesto contra o genocidio perpetrado pelos nazistas, não só contra os judeus, mas contra outras etnias como ciganos e eslavos:

«Este voto deve-o a humanidade às centenas de milhares de pessoas que sem culpa nenhuma da sua parte, às vezes só por motivos de nacionalidade ou raça, se vêem destinadas à morte ou a um extermínio progressivo.» (Pio XII, Radiomensagem Con Sempre Nuova Freschezza, n. 55, grifos nossos).

Pio XII também colaborou com a vinda de inumeros judeus para o Brasil, fugitivos da perseguição nazista. As peripecias estão narradas no livro Os Judeus do Vaticano, de Avraham Milgram, publicado pela editora judaica Imago. (É a "lista de Pio XII", se quisermos parafrasear a "lista de Schindler").

É preciso ter em mente que Pio XII era chefe de um micro-estado de apenas 44 hectares, cujas Forças Armadas reduziam-se à insignificante Guarda Suiça (certa vez Stalin perguntou: "Quantas divisões tem o Papa?"). Ademais, o Vaticano fica encravado no territorio da Italia, aliada da Alemanha no Eixo nazi-fascista. Havia o risco das tropas nazi-fascistas invadirem o Vaticano e levarem o Papa prisioneiro (como Napoleão havia feito com Pio VII, em 1812). Pio XII chegou a preparar uma renuncia por escrito que foi assinada e autenticada, de modo que ele não seria mais o Papa se viesse a cair prisioneiro do Exercito alemão*. Ele seria apenas um cidadão italiano particular, chamado Eugenio Pacelli, seu nome de Batismo. Deste modo, não se repetiria na Igreja a crise que houve com o cativeiro de Pio VII.

*Sobre o assunto, ver O Incrivel Livro do Vaticano e Curiosidades Papais, de Nino lo Bello.

Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

Julián Marías - Contra la polémica

Retirado de http://www.conoze.com/doc.php?doc=1871

Soy muy poco partidario de las polémicas. Pienso que deben ser algo excepcional, reservado a algunos casos en que se justifiquen con títulos muy precisos. La mayoría de las veces, las polémicas sirven para dar resonancia a aquello contra lo que se polemiza. Si es injusto, torpe o absurdo, caería por su propio peso y sería pronto olvidado.

Me parece muy preferible decir positivamente lo que parece verdadero y justo, con buena educación y las razones que lo sustenten. Lo malo es que esto no tendrá probablemente resonancia alguna; los medios de comunicación no lo comentarán, ni siquiera lo citarán, mientras repiten y glosan el disparate inicial, que así quedará presente en la mente de las multitudes.

En los últimos días se ha hablado con alguna precisión cuál es la realidad, que puede enunciarse con gran irresponsabilidad de la lengua española y de otras lenguas. No es difícil ver con rigor, con la coherencia que la verdad tiene, y que la hace inatacable con razones. Pero esto no produce "ondas", queda reducido a lo dicho, sin más, y ello desanima a los que no tienen fe en la razón. Siempre he pensado que el decir algo tiene importancia, aunque no pase nada, porque pasa, por lo pronto, que "se ha dicho". En los tiempos, bastante cercanos, en que era difícil y acaso arriesgado decir algo verdadero, yo sentía confianza en que algo quedara dicho. He comprobado después cuánto irrita precisamente eso, que algo haya sido dicho -o, por el contrario, que no se haya dicho nunca algo de lo que ahora se siente rubor-.

Creo que esta consideración se debe tomar en toda su extensión posible. Las posiciones políticas, las estimaciones literarias o artísticas, las interpretaciones de la historia, las valoraciones morales, son con frecuencia absurdas, indefendibles, en suma, falsas. Es un error tomarlas en serio, enfrentarse con ellas, polemizar, dándoles el oxígeno que necesitan para no ahogarse en su propio vacío. Casi todas las enormidades políticas de nuestro siglo han sido, si no engendradas, desarrolladas por la atención que se les ha prestado, incluso, y muy principalmente, la hostil.

He recordado muchas veces que en los años del decenio de 1930, las dos palabras clave de la política eran "anticomunismo" y "antifascismo". Nada más peligroso que lo negativo, el definirse por aquello "contra" lo que se está, dejando la iniciativa precisamente a eso que se pretende combatir. Fascismo y comunismo florecieron en ese decenio, con las consecuencias que conocemos bien, porque casi nadie formuló y defendió con buenas razones lo que parecía justo. Lo que hubiera podido ser la solución -que acaso acabó por imponerse en las mentes, pero en forma imperfecta y después de varios desastres y millones de muertos-, no tuvo posibilidad real de sostenerse.

Sería terriblemente aleccionador recordar lo que muchos de quienes podía esperarse otra cosa dijeron, tal vez con entusiasmo e insistencia, años atrás; y más aún lo que, pudiendo, dejaron de decir. Algunos se escudan en su juventud; pero si se miran bien las fechas, las edades corresponden a lo que siempre se ha visto como madurez; esto sin contar con que la juventud no da derecho a la irresponsabilidad.

El fondo de la cuestión es que se tenga o no confianza en la realidad misma y en su expresión verdadera; en suma, en la razón, que es, según la vieja formulación "provisional" que acuñé hace exactamente medio siglo, "la aprehensión de la realidad en su conexión". He mantenido siempre esa confianza, y creo que una de sus expresiones más certeras es que "las puertas del infierno no prevalecerán". Esto se puede aplicar a todos los infiernos, incluidos, por supuesto, los organizados y alentados por los "pobres diablos" que tienen tal influencia.

Siempre he creído que es un error "refutar" a Bartolomé de las Casas; basta con citarlo, poner ante las mentes las cosas que dijo. Y esto se podría aplicar a un sinnúmero de cosas, tesis y opiniones, que basta con formular y recordar, sin detenerse a discutirlas.

Esto es ahora especialmente fácil, más que nunca. La inmensa influencia que los medios de comunicación tienen en la difusión y propagación de la falsedad o la ausencia de valor puede quedar compensada por la posibilidad de "volver a mostrar" lo que quedó registrado y grabado, incluso con la figura, la voz y el gesto. No es ahora fácil renegar del pasado, porque se lo puede renovar y actualizar.

Lo malo es que rara vez se hace. Si ello se practicara de manera habitual, el que más y el que menos se guardaría de dar el espectáculo de la desmesura, la grosería, la difamación, la mentira pura y simple, por temor a que ello le fuera recordado, con las consecuencias previsibles.

Aun sin estos refinamientos de la técnica actual, son muchos los que viven sobresaltados por la posibilidad de que se les recuerde lo que hicieron, dijeron o callaron en otras situaciones. Es cómico el espectáculo de los individuos o grupos que se presentan como "perseguidos", cuando gozaron el favor oficial desde hace cuarenta o cincuenta años y fueron exaltados y protegidos -tal vez con justicia- por el Poder dominante. ¿Por qué no reconocerlo, o al menos guardar silencio?

Estoy convencido de que las cosas marcharían mucho mejor si los que pueden hacerlo y tienen autoridad dijeran positiva y correctamente lo que saben, justificándolo y dejando que la realidad, expresada y formulada con acierto, se encargara de invalidar la falsedad o la estupidez. No se debe malgastar el tiempo y la energía en discutir con quien no lo merece. Ambos, tiempo y energía, son bienes escasos que no se pueden dilapidar. Uno de los aciertos decisivos, que son exigibles, es el que se refiere a aquello sobre lo que se piensa y escribe. Antes incluso que los resultados, importa a qué cuestiones se aplica el esfuerzo. El catálogo de las cuestiones tratadas por un intelectual es lo primero, aquello de lo que depende ante todo su valor, su derecho a la estimación.

Y el reverso positivo de la polémica es el conocimiento y posesión, la prolongación de lo valioso, que tantas veces se olvida y abandona, se deja languidecer y morir. A veces, por temor a que eso, por ser eminente, "haga sombra" y estorbe a las propias pretensiones; otras veces la tentación es cierto servilismo, el horror a discrepar de lo que tanto se estima. La fidelidad debe ser creadora, y por ello crítica. Si en ese pasado valioso y estimable hay algo discutible o erróneo, hay que verlo, señalarlo, rectificarlo, porque con ello se contribuye a su perfección y a su posible eficacia, al transmitirse esa obra sin los defectos que son inherentes a la condición humana. Hay que agradecer el que se nos muestren nuestras deficiencias o errores; si es cuando todavía hay tiempo de rectificar, tanto mejor. Pero hay que agradecerlo también cuando la mejoría se refiera a la pervivencia de nuestro nombre y nuestra obra.

A última hora se trata de mantener una actitud positiva y abierta; confiar en la realidad sin preocuparse demasiado de sus huecos.

Segunda-feira, Dezembro 25, 2006

Olavo de Carvalho - Sobre a Física e Metafísica de Aristóteles

Obs: O que vai a seguir é trecho da quarta aula, segunda parte, de Pensamento e Atualidade de Aristóteles. Vale a pena ler todas as aulas. Chamo a atenção para a interessante discussão acerca do que é real.

Retirado do site do Olavo de Carvalho.


Depois das obras lógicas, vem a série das ciências teoréticas (aquelas cuja finalidade é tratar do real e dizer alguma coisa a seu respeito). A obra teorética esgota sua finalidade quando consegue pronunciar uma proposição ou juízo no sentido de que algo é alguma coisa ou é outra coisa. Responde à pergunta "o que é?" A lógica não pode responder a esta pergunta de jeito nenhum. Ela não trata de nada, não tem assunto. Mostra apenas os esquemas de pensamento possíveis. A série das obras lógicas pega o conjunto de tipos esquemáticos de raciocínios que fazemos sobre a realidade e os considera independentemente da realidade a respeito da qual eles versam. Portanto, a lógica só existe como ciência distinta por uma distinção mental, não real.

Vamos pegar uma ciência real qualquer - a física, por exemplo. Física para Aristóteles é a ciência da natureza e trata de algo real - o cosmos existente, que chega a nós através dos sentidos. Em seguida, você vê como raciocinamos - ou deveríamos raciocinar - a respeito da natureza, e isola o raciocínio de seu assunto. Ora, este isolamento só é feito por um truque mental, não real. Portanto, a lógica não tem um objeto real, tem apenas um objeto formal, definido idealmente. E isto é que a diferencia da ciência teorética. Ela não é uma ciência teorética porque theoréin quer dizer olhar, contemplar. A lógica não tem um objeto para o qual possa olhar. Seu objeto é totalmente inventado. A separação entre o raciocínio e seu conteúdo é, por sua vez, uma distinção simplesmente lógica, não uma distinção real.

Seguem-se os tratados de física. Tal como Aristóteles e o mundo grego a entendem, a física é o mundo dos fenômenos - o mundo que se apresenta diante de nós, considerado na sua totalidade. O sentido moderno da palavra "física" é muito mais restrito. Aquilo que hoje chamaríamos de biologia, e também a química se tivesse ocorrido uma química a Aristóteles, entrariam nos tratados de física. A física se divide basicamente em duas partes: primeiro, aquilo que se refere aos processos cósmicos; segundo, o que se refere aos seres vivos. Mais tarde, receberam os nomes de cosmologia e biologia, respectivamente.

A biologia, por sua vez, não se destaca do que hoje chamamos psicologia. Aristóteles jamais conceberia um estudo da psique que não tivesse uma raiz no corpo vivente. A alma é para ele como se fosse um aperfeiçoamento, um escalão superior da vida e não um fenômeno distinto. Vamos ver que esta inseparabilidade dos fenômenos psíquicos e orgânicos é uma das intuições centrais de Aristóteles, e que o tornará um filósofo particularmente apto a ser aceito no mundo cristão, porque o cristianismo é a religião da encarnação, da união inseparável entre alma e corpo.

Em seguida, deveriam vir os objetos matemáticos. E aí vemos que a divisão das ciências feita por Andrônico não coincide inteiramente com a divisão dos textos. Aristóteles não escreveu uma linha sobre matemática. E na divisão das ciências, a ordem seria esta: em primeiro lugar, os objetos físicos; em segundo, os matemáticos; em terceiro, a metafísica.

Aqui precisamos fazer um parêntese no seguinte sentido: quando dizemos que um objeto é um "objeto da natureza", nós o estamos distinguindo de outros objetos possíveis. Entendemos que um triângulo não existe na natureza. E também entendemos que um tatu não existe matematicamente. Porém, a diferença entre o triângulo e o tatu é uma diferença de plano ou modo de existência. Porque na verdade os dois são existentes, os dois são reais. Mas estes objetos - o tatu e o triângulo - do ponto de vista de Aristóteles, são ambos abstratos, embora sejam reais. Abstratos porque o geométrico e o biológico são aspectos da realidade; aspectos que, na verdade, coexistem, mas que nós separamos por maior facilidade de examiná-los.

Quando dizemos que 2 + 2 = 4, isto é um fato bruto, ao qual porém só chegamos através de raciocínio. Mas também entendemos que não fomos nós que fizemos dar 4, entendemos que este resultado nos é imposto pela estrutura mesma dos números. Entendemos que as propriedades das figuras geométricas também nos são impostas. Entendemos que se dividirmos um quadrado pela diagonal, vamos encontrar dois triângulos isósceles e quantas vezes fizermos esta operação, encontraremos o mesmo resultado. Isto nos é imposto de maneira dura e implacável. Esta resistência, esta consistência própria dos objetos matemáticos faz com que não somente Aristóteles, mas os gregos em geral os considerem reais. No entanto, o tipo de realidade deles não é o mesmo que tem um tatu. O tatu pode ser visto - ele nos é imposto aos sentidos. A divisão do quadrado em dois triângulos isósceles não nos é imposta aos sentidos, mas tão logo raciocinamos, percebemos que isto não é montado por nós, mas também nos é imposto. As duas coisas são reais. Triângulos, quadrados, números e suas propriedades - existem efetivamente, são relações perfeitamente reais. Tatus e elefantes também são reais. Se decidimos separar uns dos outros, é porque, além de sabermos que são reais, introduzimos uma divisão na realidade, de acordo com um interesse que é nosso. Decidimos encarar alguns como fenômenos naturais, e outros como não naturais. Ou seja, o tatu e o triângulo se distinguem não pela sua realidade, mas por uma segunda qualidade que abre esta divisão no "natural" e no "não natural". É por isso que Aristóteles os considera abstratos. Só são percebidos como distintos mediante uma abstração mental que separa o natural do não natural, embora ambos sejam igualmente reais.

O que é mais real? 2 + 2 = 4, isto é real. Não, você diz, real é o tatu que eu vejo com os olhos. Mas o tatu antes de nascer não existia e quando morrer não vai existir mais. Então ele é menos real que os números. O que eles são não diz respeito à sua maior ou menor realidade. Ambos são reais. Só que o sentido da palavra realidade, aí, se divide. Um é real de um jeito, outro de outro. Mas na realidade eles não são distintos, não podemos graduar a realidade em função deles. Representam distinções dentro da mesma realidade.

Ora, somente a realidade como tal e independentemente das suas distinções é que pode ser considerada concreta e real objetivamente. E isto é que é o conceito de Aristóteles do ser enquanto ser, a realidade enquanto tal. Para entender mais claramente isto, você pode imaginar o "tatu voador". Ele não faz parte da realidade. E a conta 2 + 2 = 5 também não faz parte da realidade. Mas também entendemos que é mais fácil haver um tatu voador do que 2 + 2 dar 5. Se a evolução animal tivesse tomado um outro rumo, poderia haver um tatu voador, ou talvez o tatu pudesse falar sânscrito - nada impede. A impossibilidade do tatu voador é relativa e condicionada a determinadas condições do universo físico. Num outro planeta pode ser que existam tatus voadores, ou tatus filólogos. No filme "Guerra nas Estrelas" há um tatu filósofo - o guru do Luke Skywalker. Estas coisas não são inconcebíveis. Mas é inconcebível que 2 + 2 dêem 5. O tatu filólogo ou o tatu voador são idéias com as quais os nossos sentidos se revoltam. Mas somente os sentidos - a inteligência não. Ela admite esta hipótese, embora como remotíssima. Agora, existe a hipótese remotíssima de que 2 + 2 dê 5? Existe a hipótese de que em algum outro planeta 2 + 2 possam dar 5? Existe a hipótese de que em outro universo 2 + 2 dê 5? É inconcebível e seria auto-contraditório. Então você entende que há gradações de impossibilidade. O estudo do real só se esclarece quando se confronta o real com o irreal, e você vê estas distintas gradações de irrealidade. Este estudo faz parte de alguma ciência? Não, nenhuma ciência pode estudar isto, porque toda ciência já subentende estas distinções. Então Aristóteles se viu na contingência de ter de inventar outra ciência. Todas as ciências se fundavam em distinções deste tipo - real, irreal, possível, contingente, necessário. Todas elas se baseavam nisto e estas distinções não eram estudadas por ciência alguma. Este estudo das condições que definem o real, que o delimitam, que o separam do irreal, e também o possível do impossível, é o que se chama ontologia ou metafísica, ou filosofia primeira, ou como Aristóteles também a chamava, teologia. Por um curioso paradoxo, somente o objeto da metafísica é perfeitamente concreto, pois o real como tal não pode ser abstrato. Neste sentido é que triângulos e tatus são abstratos, em face da realidade como tal, do ser como tal.